Virada em Torres

Terça, 10/01/2017

Guile Rocha

____________


            E lá se foi mais um Réveillon em Torres. Mais uma vez, vimos a cidade lotada por centenas de milhares de festivos turistas e veranistas, vindos de tudo que é lugar e de várias classes sociais. O pessoal quer fugir do calor, e se a praia é o refúgio natural, Torres ainda tem as belezas naturais como 'plus'. Até o governador do RS, José Ivo Sartori, e o técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Tite, aproveitaram a data para curtir as nossas praias. Dezenas de prédios e casas que permanecem fechados, quase fantasmas durante boa parte do ano, são utilizados a todo o vapor. Um bom exemplo foi a região das Quatro Praças, zona nobre de edifícios que cruza a Av. Silva Jardim, que ficou belamente iluminada na noite. No limiar do dia 31 de dezembro na beira-mar da Praia Grande - durante o pico da agitação - houve show (curtinho, cerca de 40 minutos) com a banda de reggae Chimarruts, chamando para o ano novo, seguido pelo tradicional espetáculo de fogos de artifício (que este ano acabou sendo mais modesto que o atual). E milhares e mais milhares de pessoas festejavam, cada uma a sua maneira, mais um réveillon que passava.

            Dentro do mesmo panorama, há aqueles moradores que estão aproveitando a temporada para trabalhar bastante, 'fazendo acontecer' aquela tão esperada grana extra que vêm do veraneio: restaurantes, lojas, hotéis e serviços em geral tem um incremento significativo em seu movimento - e consequentemente contratam pessoal para dar conta da demanda. Todo o comércio se movimenta em outro ritmo, e se há alguns anos atrás o fluxo concentrava-se apenas nas proximidades da beira-mar, hoje espalha-se por quase toda a região central de Torres. E em meio a todo esse rebuliço, há ainda o pessoal que tenta viver no verão uma vida parecida com a que há na baixa temporada -  mas isso torna-se uma missão quase impossível. 


Trânsito 


             Em cada novo réveillon que passa, vemos alguns prognósticos se repetirem: a superlotação de carros congestiona o trânsito e cada um da seu jeitinho de dirigir equivocadamente e contornar os obstáculos no trânsito... mas não sejamos tão pessimistas, pois se vê gentileza em meio ao trânsito caótico também: motoristas dando passagem para pedestres (mesmo quando não há faixa de segurança) ou deixando que os carros mais apressadinhos passem.

Nas redes sociais, voltaram as reclamações de pessoas questionando mudanças viárias efetuadas principalmente em 2014 pelo governo Nílvia Pereira - que instituiu rótulas,mudanças de sentido de vias e que teriam deixado o trânsito torrense mais lento, afogando locais como a rótula central da Av. Barão do Rio Branco, além de trechos da Av. Benjamim Constant e a rua Joaquim Porto. Mas quem conhece bem a cidade já sabe (há muitos anos): no período de Réveillon, é época de usar o carro só pra emergências, priorizando a bicicleta ou as caminhadas.

            Há ainda muitas pessoas não se envergonham em estacionar irregularmente seus veículos - principalmente próximo a orla, buscando ficar mais perto da praia. A polícia fez o que pode para barrar estes crimes de trânsito - nas proximidades da orla da Praia Grande (local de maior movimento de praia) foram guinchados alguns carros estacionados em canteiros públicos (ou até mesmo no meio de algumas ruas mais largas). Mas o volume é intenso demais, e a fiscalização teve dificuldade em dar conta destas infrações.


Lixo e mau cheiro

 

            O Réveillon é sinônimo de areias lotadas em Torres, mas também de muito lixo deixado para trás: copos, garrafas, fraldas sujas, embalagens de plástico e papelão, bitucas de cigarro, garrafas quebradas, restos de comida são apenas alguns dos exemplos. Infelizmente, falta educação para muita gente. O problema do lixo emporcalhando as praias, vias públicas e até as áreas de proteção ambiental não é apenas relativo a alta temporada em Torres, mas naturalmente assume proporções bem maiores neste período - em que a população aumenta até 10 vezes além do normal: o volume de lixo é imenso, e há custo elevado de logística para coletar, transportar e destinar adequadamente estes resíduos (que num cenário ideal poderiam ser reduzidos, reciclados e reaproveitados).

        Consequentemente, no período do Ano Novo (e no veraneio em geral) há um incremento nas ações do pessoal que trabalha com a gestão de resíduos - são mais frequentes as ações da empresa prestadora de serviço de coleta de lixo (a Urban, em Torres), bem como o trabalho da coleta seletiva, dos garis. Até mesmo os catadores multiplicam-se. Mas a população, o comércio e os turistas também devem sempre fazer sua parte com ações simples (mas que fazem toda a diferença): separar o lixo seco do lixo orgânico, adotar uma lixeira em frente a seu estabelecimento,/residência, conhecer os roteiro da coleta seletiva. Os comerciantes também devem zelar pelo patrimônio público, garantindo limpeza de seus locais de trabalho.

            Neste contexto, outra reclamação que voltou a ocorrer nas redes sociais foi em relação a falta de recipientes de limpeza de tamanho adequado para a demanda de lixo junto ao calçadão da Praia Grande. As pequenas lixeiras em formato de balão - muitas delas já quase sucateadas - acabaram literalmente transbordando com tanto lixo. E junto com lixo, vem o mau cheiro. Em Torres, alguns lugares como a histórica rua Júlio de Castilhos ficaram desagradavelmente fétidos durante estes dias de enorme movimento, com visíveis poças formadas junto ao meio fio. Mau cheiro este que existe por vários motivos: desde as dificuldades no recolhimento de lixo aos canos de esgoto estourados ou entupidos, passando pelas várias pancadas de chuva torrencial que ocorreram nesta época. Mas tudo isso deixa claro algo em Torres: a dificuldade de atender a demanda de uma população flutuante 10 x acima do normal na cidade.

            Mas a boa notícia para a área é que a nova gestão da prefeitura de Torres - preocupada coma questão da limpeza - já instituiu o chamado choque de limpeza durante o veraneio. Este serviço que consiste "na execução da capina, recolhimento de vegetação, entulhos em geral e ainda a pintura do meio-fio dos pontos mais visitados pelos turistas, assim como as vias de acesso a estes locais", além da limpeza da beira de praia e de valos/ esgoto pluvial.


Carros na Itapeva

 

            Outra questão que gerou polêmica nestes dias - numa batalha entre pontos de vista ambientais e turísticos - foi a continuidade do uso da Praia de Fora (ou praia de Itapeva) por carros durante estes dias de grande agitação. No final de dezembro de 2016,  a Justiça havia restringido a circulação de veículos na praia da Itapeva. Uma ação civil pública (que decorre de uma licença da Fundação Estadual de Proteção Ambiental - Fepam), restringia a entrada na faixa de areia apenas para veículos oficiais de fiscalização ou que tivessem autorização prévia, e determinava que a Prefeitura de Torres fizesse o controle racional de circulação de veículos no local. Uma placa - fixada na entrada da praia - deixa claro que apenas o acesso operacional é permitido na área. Apesar disto, vários carros foram flagrados utilizando-se da orla da Praia de Fora, inclusive gerando concentração de lixo na areia (conforme registro fotográfico).

            O fechamento da praia tem como pano de fundo, principalmente, a proteção do meio ambienta da área - que é zona de amortecimento do Parque Itapeva, sendo lar de espécies nativas e aves migratórias que sofrem com o uso desregrado da praia. Diversas entidades de proteção ambiental  - como a ONG Onda Verde, Cepento, COMMAM e Associação dos Surfistas de Torres - se juntam a gestão do Parque Estadual de Itapeva (PEVA) buscando barrar o excesso de veículos que utiliza o local de forma irresponsável, prejudicando a fauna e flora.

            Por outro lado, o local já é tradicionalmente utilizado com finalidade turística por torrenses e veranistas, que gostam de poder estacionar seus carros e utilizar-se da Praia de Fora para seu lazer a beira-mar. Inclusive o prefeito de Torres, Carlos Souza, manifesta-se contra o fechamento da Praia de Itapeva para veículos, alegando que "As outras praias de Torres não absorvem o fluxo de pessoas que vai na Itapeva, ainda mais nessa época que a cidade chega a receber 300 mil pessoas em um final de semana. Conforme o prefeito, a“decisão judicial deve ser cumprida, mas continuarei lutando pela circulação de veículos no local”.



Fonte: www.afolhatorres.com